Os terminais portuários de uso privado ganham espaço no Sul do país, enquanto Santa Catarina e Rio Grande do Sul anunciam projetos bilionários e o Paraná segue com forte concentração em estruturas públicas e áreas arrendadas. O movimento reacende o debate sobre competitividade logística e capacidade de escoamento da produção na região.
Segundo dados apresentados por especialistas do setor, cerca de 58% das operações portuárias brasileiras ocorrem em terminais privados, contra 42% em estruturas públicas. No Paraná, porém, a proporção seria praticamente inversa: apenas 8% em terminais privados e 92% em estruturas públicas e áreas arrendadas, conforme afirmou o superintendente da FIEP, João Arthur Mohr.
Entidades do setor produtivo também defendem a ampliação da oferta de portos para embarque. Para Nelson Costa, superintendente da Fecoopar, a prioridade está em novos portos para o setor. Já Ágide Eduardo Meneguette, presidente do Sistema FAEP, afirmou que o aumento da capacidade portuária seria o investimento estruturante mais importante para transformar o litoral paranaense.
Terminais portuários de uso privado e a disputa por cargas no Sul
Dados mais recentes da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (ANTAQ) indicam que a participação dos terminais privados cresce ainda mais quando se considera a movimentação de cargas: cerca de 65% da carga portuária nacional passa hoje por Terminais de Uso Privado. Para a agência, esse modelo amplia a capacidade logística, atrai investimentos e aumenta a competitividade no comércio exterior.
O avanço também aparece nos números de novos projetos. Entre julho de 2025 e janeiro de 2026, o Ministério de Portos e Aeroportos formalizou 25 instrumentos contratuais ligados a TUPs, com R$ 9,23 bilhões em investimentos privados. Desse total, sete novos contratos de adesão somam R$ 5,81 bilhões.
Santa Catarina e Rio Grande do Sul ampliam projetos bilionários
Em Santa Catarina, o TGSC – Terminal de Granéis de Santa Catarina – recebeu autorização para entrar em funcionamento em São Francisco do Sul e deve exportar granéis agrícolas, com capacidade de até 6 milhões de toneladas por ano na primeira fase. O Estado também tem o Porto Brasil Sul em licenciamento ambiental e recebeu novo anúncio da Coamo, cooperativa paranaense que investirá R$ 3 bilhões para construir um terminal privado em Itapoá, com três berços de atracação e previsão de movimentar 11 milhões de toneladas por ano.
O movimento chama atenção porque parte de uma empresa do Paraná. A Coamo já utiliza Paranaguá para escoar aproximadamente 5 milhões de toneladas por ano, mas agora busca nova alternativa logística em Santa Catarina. Além disso, o Porto Itapoá já opera como terminal privado e segue em expansão, enquanto Portonave e outros terminais reforçam a estrutura portuária catarinense. Em 2025, os portos do Estado movimentaram 65,7 milhões de toneladas, alta de 4,78% ante 2024.
No Rio Grande do Sul, o Porto Meridional, em Arroio do Sal, foi autorizado como Terminal de Uso Privado e prevê investimento de cerca de R$ 1,3 bilhão. O empreendimento deverá movimentar granéis sólidos, líquidos e gasosos, cargas gerais e contêineres, além de gerar mais de 2 mil empregos diretos e quase 5 mil indiretos, segundo o Ministério de Portos e Aeroportos. O Estado também prevê dois novos terminais privados ligados ao Projeto Natureza, da CMPC, em Rio Grande e Barra do Ribeiro, com investimentos estimados em R$ 1,4 bilhão.
Apesar do avanço dos vizinhos, o texto destaca que Paranaguá continua entre os maiores e mais eficientes complexos portuários do Brasil. Ainda assim, especialistas avaliam que o Paraná precisa discutir como ampliar sua infraestrutura e criar alternativas para acompanhar o crescimento da produção e do comércio exterior nas próximas décadas.
O vice-governador do Paraná, Darci Piana, afirmou que o novo porto de Pontal deve receber investimentos de R$ 6 bilhões e que o projeto não será concorrente de Paranaguá, mas complementar. Ele também destacou o calado de 18,5 metros como um diferencial relevante para o Estado.
Na avaliação das entidades do setor produtivo, a expansão da infraestrutura pode atrair investimentos privados, gerar empregos e evitar que oportunidades logísticas migrem para estados vizinhos. “Para o Paraná, portanto, a questão que se coloca não é apenas quanto o Estado movimenta hoje, mas quanto da expansão portuária e logística das próximas décadas será realizada dentro de seu território”, afirmou João Arthur Mohr.